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Entrevista a Pedro Lopes, Diretor Geral de Conteúdos SP Televisão

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Entrevista a Pedro Lopes, Diretor Geral de Conteúdos SP Televisão

O Pedro está na SP Televisão desde a sua criação, há 15 anos, mas como começou o seu gosto por escrever e, em particular, por esta área?

Sinto que os sinais foram surgindo ao longo da adolescência, mas só me apercebi disso muito mais tarde. No liceu, quando as aulas não me interessavam, costumava ocupar o tempo a escrever histórias, mas que eram escritas em formato guião, ainda que não soubesse o que isso era, o que significa que sempre pensei de forma visual. Depois, na Faculdade de Letras de Lisboa, onde estudei História, envolvi-me sempre em muitas atividades, fiz teatro, tocava bateria numa banda, e depois das aulas passava as noites no cinema ou em tertúlias. Mas, apesar desses sinais todos, continuava a pensar que a minha carreira passaria pelo ensino e a investigação.

Como é que um historiador, amante de factos, se apaixona pela ficção?

Provavelmente apaixonei-me pela História porque também é uma construção narrativa e que, assim como muita da ficção audiovisual, concorre para a construção da memória social. O Stendhal dizia que a ficção é o verdadeiro “um pouco pormenorizado”, e foi isso que me fascinou na ficção, não termos de ficar presos à realidade, mas sim ao que chamamos verosimilhança.

Ao longo destes 15 anos como vê a evolução da ficção nacional e internacional. Crê que estão a par e passo?

Cada mercado tem a sua especificidade. Somos um pais periférico, embora com o surgimento das plataformas de streaming criou-se, pela primeira vez, as condições do público aceder a filmes, séries e documentários de todas as latitudes, sem estar tão dependente da curadoria de um diretor de programas, já que as plataformas são na verdade grandes videotecas de conteúdos muito diversos. Depois, no nosso País há alguma resistência a olhar para o cinema e para a televisão como uma indústria. Esta palavra ainda tem uma conotação negativa, mesmo que se acrescente a seguir a ”indústria” as palavras “cultural e criativa”. A questão é que o nosso mercado só será forte se tivermos pessoas que consigam profissionalizar-se, construir uma carreira e evoluir. Para isso é necessário haver uma continuidade de produção, daí considerar fundamental a transposição que foi feita da diretiva europeia, e que traz uma maior responsabilização dos players, tornando-os parceiros deste movimento que se quer de efervescência criativa, e que só poderá verdadeiramente existir se houver obrigatoriedade de produzir em português.

O Pedro já escreveu muitas e boas histórias, inclusivamente já venceu um International Emmy Award com a telenovela Laços de Sangue, em 2011. Que projeto lhe deu mais gosto de escrever?

É difícil responder. Eu considero-me um entusiasta (e muito pouco saudosista), por isso o último projeto em que estou envolvido é sempre o melhor. Obviamente que isso também aconteceu porque tenho tido a sorte de poder contar as histórias que de certa forma me interessam pessoalmente. Pelo menos as obras que escrevi, não sei se será assim com todos os autores, vejo-as sempre como uma visão pessoal do Mundo.

E qual é a sensação de ver a sua história ganhar vida e cor no ecrã?

O resultado final é o culminar de um longo processo em que se vai agregando talento, em que cada área vai acrescentando valor e contribuindo com o seu saber para a visão que se definiu para o projeto. Este trabalho de equipa fascina-me porque estamos sempre em contacto com pessoas interessantes, com quem vamos aprendendo todos os dias. Esta é a dimensão da produção em que estamos envolvidos todos os dias. Depois há a questão da receção, e que se prende com as audiências, a leitura que o público e a crítica fazem das nossas séries e telenovelas. Na SP Televisão temos sempre um grande respeito pelo público, porque se o objetivo último é comunicarmos com a nossa audiência, então temos que em todas as fases do processo de produção perguntar-nos se estamos a dar o nosso melhor.

O Pedro tem formado alguns autores ao longo destes anos, até porque é um dos profissionais da área mais requisitados para dar aulas na área do storytelling e participar em conferências e palestras, quer em Portugal, quer no estrangeiro. Sente a responsabilidade de criar novos profissionais? Mais do que a teoria, tenta passar aos seus formandos experiências? Que conselhos daria a quem quiser seguir os seus passos?

O talento não se ensina, mas podemos ajudar a que ele se revele. Eu preocupo-me muito em dar ferramentas teóricas aos alunos. Como em qualquer outra atividade, é preciso disciplina, esforço, curiosidade e paixão. No entanto, uma parte importante do meu trabalho como docente (na Escola Superior de Comunicação Social e na Universidade Católica) tem sido ajudar os alunos a encontrarem a sua própria voz, como autores.

Para além do Pedro marcar presença em alguns dos eventos internacionais mais importantes desta área, e ser membro da International Academy of Television Arts & Sciences, também é o autor de Glória, a primeira série portuguesa da Netflix. Sente-se como um dos grandes responsáveis por difundir, além-fronteiras, o trabalho que a SP Televisão desenvolve? Sente também que está, simultaneamente, a promover a ficção nacional no geral?

No dia em que me sentir o grande responsável pelo que quer que seja é porque perdi por completo o discernimento. As empresas do universo SP Televisão são feitas de pessoas e cada uma contribui à sua maneira para o sucesso das nossas séries e novelas, e pelo sucesso do grupo. Obviamente que há pessoas que acabam por ter mais visibilidade, porque as suas funções a isso obrigam, mas aquilo que se conseguiu até hoje é graças a um número infindável de pessoas que surgem nas fichas técnicas. Quanto ao facto da série Glória ter promovido a ficção nacional além-fronteiras, é uma realidade e julgo que a série foi um excelente cartão-de-visita, mostrando a nossa capacidade criativa instalada.

Que histórias estão por contar?

Todas! E essa é talvez a maior angústia de um argumentista, saber que apenas uma ínfima parte dos projetos que tem na cabeça virão um dia a ser produzidos. Mas estou muito confiante nas histórias que estamos a desenvolver internamente na SP Televisão e na SPi e espero que cheguem ao mercado nacional e internacional em 2023 e 2024.

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