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Entrevista Adriano Luz

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Entrevista a Adriano Luz, Diretor Artístico SP Televisão

O Adriano é das caras mais conhecidas do público, em teatro, cinema e televisão. Atualmente concilia a profissão de ator com a de Diretor Artístico da SP Televisão. Como compatibiliza estas duas vidas?

A minha matriz é ser ator, mas acho que uma é indissociável da outra, isto é, se eu não fosse ator dificilmente conseguiria ser o Diretor Artístico que sou hoje. Se há uns anos, quando fui convidado pela primeira vez para esse cargo, me tivesse fechado num gabinete acho que me tinha esvaziado por completo. A direção artística é algo dinâmico, transversal, e eu faço-o de forma colegial, quer com a produção, quer com a coordenação de cada projeto, com a direção de atores, por forma a criar consensos. Na minha ótica, eu só consigo fazer uma direção artística se continuar a conhecer a realidade dos realizadores, dos atores, dos diretores de fotografia e de arte, e isto acontece porque eu sou ator e continuo a trabalhar enquanto tal. Eu não o poderia fazer de outra maneira.

Enquanto Diretor Artístico, qual a importância de participar nos projetos da SP Televisão como ator?

Presentemente, e a pedido da SIC, estou a gravar a novela Sangue Oculto, onde interpreto uma das personagens da história. Esta é uma das formas que tenho de estar inserido naquele ambiente de gravações, onde tomo uma maior consciência do que ali se passa. Mas uma telenovela é um projeto tocado a inúmeras mãos e nem sempre é fácil coordenar porque envolve, precisamente, muita gente. Fazer novelas é uma escola extraordinária porque é preciso ter uma grande capacidade de raciocínio e rapidez a resolver questões, e é aqui que acho que o Diretor Artístico ganha se o plateau não lhe for uma coisa distante. É no plateau que se decide o êxito de um projeto… não só ali, mas também.  

Como é o seu dia-a-dia? Principalmente em momentos em que esteja a gravar uma novela, um filme, uma série ou até mesmo a fazer uma peça?

A mim desregula-me mais o ócio do que o trabalho, por isso digo sempre que as férias são a pior coisa para a minha saúde porque é, normalmente, nessa altura que faço muitos disparates. Quando as pessoas dizem que vêm melhor das férias, eu digo que venho sempre pior. Mas dizia eu que quando tenho muito trabalho sou extremamente disciplinado, porque consigo ter tempo para fazer várias coisas a nível de trabalho, bem como ir ao ginásio, e faço questão de reduzir ao máximo tudo aquilo que me possa cansar.

O Adriano também é encenador. Qual a grande diferença entre encenar uma peça e dirigir artisticamente um projeto de televisão?

São trabalhos muito diferentes, no sentido em que se eu encenar um espetáculo ou realizar uma curta-metragem há sempre um ponto de vista que é o meu, mas em novela as coisas já não se processam assim, nem tão pouco na direção artística. Neste último, é feito um exercício de delegar competências em pessoas que escolhemos para trabalhar esse projeto. Se eu falhar na escolha dessas pessoas, no fundo estou a sabotar o meu próprio trabalho.

Enquanto Diretor Artístico é responsável pela escolha de elenco para os projetos. Explique-nos um pouco como se processa essa escolha.

Sou muito colegial e nunca faço essas escolhas sozinho, por isso, faço questão que se juntem a mim o autor da novela, o coordenador do projeto, a direção de atores e a Isabel Pereira, que foi responsável pelo departamento de elencos. Com a história da novela já delineada, a partir de uma proposta inicial de elenco que encomendo à direção de atores, reencaminho-a a todas estas pessoas que já aqui referi e peço a cada uma delas para juntar também a sua proposta. E a partir daqui, entre todos, fazemos a escolha dos atores para integrarem o elenco de uma novela, embora no limite eu tenha o poder de vetar algum nome por achar que possa não ser a pessoa mais indicada para determinado papel. Mas confesso que isto é muito raro acontecer. Depois da nossa proposta, o canal é quem toma a decisão final sobre o elenco.

O que acha que é preciso para se tornar um grande ator? Que conselhos daria aos mais novos e aos que sonham em ser atores?

O que acho que é preciso para se ser um grande ator é um grande talento, basicamente é isto, que não é a mesma coisa que se ter sucesso. Hoje em dia, para se ter sucesso, é preciso ter uma grande capacidade de comunicação nas redes sociais, ser emocionalmente inteligente, ter uma boa gestão de carreira, mas isto não tem nada a ver com o talento que é preciso ter para se ser um grande ator. Eu diria que estes dois mundos nem sempre se encontram, porque para se ter sucesso implica ter uma visão empresarial da coisa e para se ser um grande ator é preciso ter talento. O conselho que posso dar àqueles que sonham ser atores é que estudem porque, certamente, vai permitir-lhes ter ferramentas para exercerem o seu talento.

Qual o papel que desempenhou ao longo da sua carreira de mais de 40 anos que mais o emocionou? E que mais gozo lhe deu?

No cinema foi, seguramente, a minha personagem no filme Mistérios de Lisboa. O Padre Dinis foi uma personagem extraordinária, mas principalmente por ter tido o privilégio de conhecer e trabalhar com o cineasta Raúl Ruiz, embora com muita pena por ter sido no seu último filme e numa fase em que ele já estava muito doente. Mas para mim foi uma grande fonte de aprendizagem e nunca conheci ninguém que fosse tão tocado pela genialidade como ele, o Raúl tinha qualquer coisa de mágico.

É difícil desligar de uma personagem no final do dia? Como se divide a realidade da ficção?

A expressão “levar a personagem para casa” a mim parece-me um abuso de linguagem porque, sinceramente, não acredito que haja algum ator que leve a personagem para casa. Na verdade, o que se leva é a carga emocional e o desgaste físico para casa, como acontece em qualquer outro trabalho.

Que papel lhe falta desempenhar?

Não faço ideia… acho que a nível de personagens já fiz de tudo um pouco. Se me perguntar que texto gostaria de fazer, eu dir-lhe-ei que gostava muito de fazer Tchekhov, porque há muito anos que não faço. Fiz quando era muito miúdo e gostei muito do universo do Tchekhov.

Rita Leal / SP Televisão voltar